segunda-feira, 9 de março de 2015

Puro Cinismo Político



I.
Contrariamente ao que nos ensinaram na disciplina de português, a sigla que se adequa à expressão deste título não seria tanto P.C.P. mas B.E. - Bloco de Esquerda.

De facto, no passado dia 2 de Março foi tema de conferência de imprensa - com honra de Telejornal e tudo - a notícia intitulada «Bloco apresenta medidas de combate à discriminação de género e apoio à família» [1].

Os portugueses conhecem bem o género de discriminação(?) que interessa à retórica do Bloco toda eivada da mesma "ideologia do género" que vai promovendo a desagregação familiar e social por todo o mundo, merecendo por isso a justíssima condenação por parte da Igreja.

Mas um novo grau de cinismo surge agora - e é preciso, é urgente denunciá-lo. A introdução de supostas "medidas de apoio à família" por parte de quem, na sua acção política, pouco mais tem feito do que combater, corromper e degradar a família tradicional, só pode constituir uma nova e bem artificiosa tentativa de branquear toda a acção anti-família que o Bloco de Esquerda tem vindo a desenvolver ao longo dos últimos anos.

Interpretadas no quadro de uma tendência progressiva de perda eleitoral do Bloco de Esquerda, estas medidas só podem significar retórica sem qualquer conteúdo verdadeiramente correspondente ao espírito das palavras: «reforçar a proteção das mulheres grávidas, puéperes e lactantes no mercado de trabalho, bem como por contribuir para a igualdade entre homens e mulheres. A resposta à primeira infância e o apoio à família».

Por todos, basta um exemplo. Quem, como o BE, tão encarniçadamente defende o suposto "direito ao aborto"das mulheres, ao dizer pretender «reforçar a protecção das mulheres grávidas» não pode deixar de estar a pensar «reforçar a protecção das mulheres grávidas contra os seus bebés» alargando o prazo para abortar, promovendo uma educação sexual pró-aborto nas escolas e tantas outras medidas que todos sabem constituir o programa do BE para aprofundar o Inverno Demográfico e precarizar ainda mais o direito à Vida. Por falar em Inverno Demográfico, pois agora também o Bloco que para ele tanto tem contribuído diz estar preocupado [2].

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II.
Ainda sob o tema "cinismo", deixemos agora o PCP passando ao caso PPC. Muito se tem falado do péssimo exemplo dado à sociedade pelo sr. Primeiro Ministro pela forma como ao longo de anos se eximiu ao dever de contribuição para a Segurança Social, e da forma inaceitável como, confrontado com os factos, pretendeu justificar-se. Ainda nesta semana o assunto regressará ao Parlamento para justificadíssimo debate. Ao contrário do que o Sr Presidente da República diz, este não é um tema de politiquice partidária que "desvia os governantes dos verdadeiros problemas dos portugueses".

Na situação social que se vive, estes é que são os "verdadeiros problemas" de milhões de portugueses, a depender de alguma forma, permanente ou temporária, da protecção social do Estado. Pode lá ser considerada politicamente irrelevante uma falha grave e reiterada ao longo de anos do actual Primeiro Ministro perante a Segurança Social, sendo ele hoje responsável último pela máquina de trituração de milhões de contribuintes, que são sujeitos a um inferno de penhoras e bloqueios de contas à mínima falha - e por vezes sem falha nenhuma, conforme se mostrou na passada edição do programa "Sexta às nove"?

Penso que um partido com preocupações de Justiça Social, como o PPV, deve condenar claramente a postura do actual Primeiro Ministro, a qual não desaparece pelo simples facto de ele ter - tarde e a más horas - pago o imposto em falta, ou parte dele - resta saber. O bolo da Segurança Social para o qual contribuímos é, no fundo, o "pão dos pobres" a que tantos necessitados têm de recorrer. Não contribuir não significa "distracção" como alegou Passos Coelho mas desprezo pelo estado de necessidade do próximo. Uma posição da própria Igreja nesta polémica seria plenamente justificada, a meu ver. Aqueles que na igreja mais directamente lidam com a pobreza e por vezes falam em nome dos pobres (P.e Lino Maia, Isabel Jonet, Eugénio da Fonseca, ou mesmo certos Bispos) bem poderiam aqui ter uma intervenção de afirmação de princípios sagrados, se poder ser acusados de fazer "política partidária". Quer-me até parecer que se o Papa Francisco fosse Bispo de Lisboa não ficaria calado sobre isto...

Mas além de criticar o Primeiro Ministro, que mais se esperaria de um PPV politicamente activo? Que apresentasse propostas e ideias. A primeira ideia - óbvia - é a de que um primeiro-ministro deve ser pela Autoridade Tributária e pela Segurança Social como um cidadão comum. Se Passos Coelho incumpriu e nada lhe aconteceu, deve apurar-se que serviço e/ou o "gestor de conta" fez vista grossa e responsabilizá-lo pela evidente incompetência e/ou erro grosseiro. Segunda ideia: mantendo-nos na linha do "erro grosseiro", talvez a "cegueira" da máquina fiscal e/ou da segurança social ficasse menos "cega" se, tendo penalizado injustamente um contribuinte cumpridor, o agente responsável pelo erro fosse por sua vez identificado e penalizado. De outra forma, como poderemos ter algum dia um Estado/"pessoa de bem" em vez daquilo que hoje, à força de tanta injustiça e arbitrariedade, chega a assemelhar-se ao "bando de Ladrões" de que falava Santo Agostinho.

Luís Botelho
Porto, 9 de Março de 2015



[1]  http://www.esquerda.net/artigo/bloco-apresenta-medidas-de-combate-discriminacao-de-genero-e-apoio-familia/36035

[2]  http://bragadistrito.bloco.org/inverno-demografico/1141  

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